Season finale

20 jun

Meu pai sempre arranjou uma maneira de ter algum meio de locomoção. A principio era uma Vespa, depois pelo que eu me lembre foi um Bugre, uma Caravan, um Chevete, um Fusca amarelo, um monte de outros Fuscas, uma Variant barulhenta com o assoalho seriamente danificado, um Tempra barulhento, outros Fuscas, até ter conseguido um Celta zero Km.

Não estive presente (como em muitas ocasiões) quando ele o retirou da loja, mas acredito que ele estivesse bem feliz, andava de cima pra baixo, me visitava, saiamos com seu novo possante.

Aprendi a dirigir nele, alias, foi o primeiro carro que guiei. Colocavamos músicas bacanas, geralmente era um Santana que tocava ao fundo.

Bom, ele se foi e eu depois de um tempo tive a guarda do Madruguinha (nome que minha irmã deu ao carro), tive muitos bons momentos com ele, fiz manutenção, troquei peças, óleo, recentemente coloquei um som bem legal. Ele estava perfeito da maneira que era.

O volante era algo especial: meu pai tinha a mania de arranhar uma certa posição dele e ali ficaram registrados seus momentos no carro, encostando ali eu sentia que estava com ele.

Cheguei a pensar que ele seria aquele tipo de carro que a gente casa, sabe? Comprar outro no futuro, mas deixa-lo pra sempre ali, como uma boa lembrança dele e minha também.

Por uma infantilidade, insensatez, inconsequência (chamem como quiser), acabei em um acidente de transito. Onde no ultimo instante fiz a escolha correta, mas poderia ter sido fatal: escolhi enfiar o carro de frente em um poste, acreditem, não foi fácil escolher isso.

No fim o Madriguinha me protegeu, de certa maneira senti que meu pai me segurou naquele momento, não consigo explicar muito bem, sai ileso daquele incidente fruto da minha estupidez.

Hoje o seguro me informou que o carro não tem solução.

Aparentemente eu deveria estar feliz, pois sai ileso e receberei o valor que não conseguiria em uma venda normal. Na verdade estou triste, o que sinto é que acabei de destruir mais uma coisa boa que eu tinha (não material) nesse momento estranho que venho passando.

Tentarei ficar com o volante, a parte que eu mais gostava do Madruginha que eu destruí.

Esse é mais um daqueles pontos da vida em que acontece uma grande merda, que você encerra o ciclo e segue em frente, como em um seriado: a season finale.

Amanhã vou na oficina despachar o Madruguinha para o seu velório, com certeza essa música vai estar na minha cabeça:


Espero que os roteiristas tenham preparado algo melhor pra mim na próxima.

Situações privadas em lugares públicos

23 maio

Essa greve do metro me lembrou uma certa situação.

Um dia muitas coisas estavam em minha mente, me perdia em pensamentos e ficava triste por não conseguir chegar à conclusões.

Estava em um ônibus na avenida Rebouças, tudo parado, um passageiro desceu e outro se sentou ao meu lado. Geralmente as pessoas não gostam de sentar no mesmo banco que eu (só os desencanados ou cansados), logo percebi que era uma pessoa que não ligava muito para o ambiente externo.

Era uma mulher, de vestimenta simples e sorriso sincero, reclamou do calor e da demora. Também me disse sobre como o dia tinha sido péssimo e como ela deixa as coisas correrem para ficar com a mente tranquila. Pensei em me expressar sobre o trubilhão de problemas que estavam na minha cabeça, desabafar, matar o tempo e descarregar os pesos das costas.

Me calei e fui indiferente, não por ela ser uma anonima pra mim, até era melhor, mas na hora pensei que ela acharia uma maneira simples que transformariam meus problemas em besteira. No fundo eu sabia disso e me incomodei.

Naquela época esses pequenos problemas eram as únicas coisa que eu tinha, pelo menos eu achava… Ultimamente eles estão voltando, acho que hoje conversaria com aquela senhora, seria reconfortante.

Adeus querido amigo

22 maio

“O melhor que esses fones de ouvido têm a oferecer são seus os tons graves sensacionais.”

Era isso o que estava escrito no site da Philips sobre o meu fone modelo SHP2700/10, mas pra mim era mais do que isso, além de proporcionar esses excelentes graves, ele também me acompanhava quando estava nervoso, feliz, triste, cansado. Me mantinha acordado como única companhia nas noites do escritório.

As vezes colocava ele somente por colocar, sem estar tocando nada. Parecia que dele saiam pensamentos e idéias que só alguém que me conhece bem pode falar, me mantinha num mundo isolado onde poderia estar seguro em meus pensamentos.

Hoje ele parou de funcionar, na hora nem pensei muito sobre isso, mas quando precisei dele… ele já não estava mais la. Senti uma tristeza inexplicável e um mau humor incontrolável.

Vocês podem dizer: “ah, é só um fone”.

Pode até ser, pois de fato era. Mas pra mim ele possuia algo insubstituível que é esse lance de companheirismo e carga emocional das lembranças. Já tive outros fones que se quebraram, terei outros que se quebrarão, mas vai ser difícil criar outra relação afetiva como essa, até porque fones não falam e tudo foi criado por mim.

Não jogarei o fone fora, será mais umas das “tralhas velhas” que guardo comigo de lembrança e afeto.

Mas queria ouvir mais uma música com ele =/

Estrada para o inferno

21 maio

Tem uma frase que eu gosto muito que é: “a estrada para o inferno é pavimentada de boas intenções”.

Pois é, entrei nessa pista muito acima da velocidade limite, as curvas sinuosas não me fizeram frear em nenhum momento, pois eu sabia que eu estava fazendo a coisa certa, não medi as consequências, muito menos hesitei.

Existem certos caminhos que não possuem faróis, transito e buracos, a sinalização é muito boa mas o destino é sempre incerto. Dessa vez eu sabia muito bem para onde eu ia, disse pra mim mesmo no caminho: “eu vou até o inferno e que se foda”. O problema é que o inferno não é um lugar muito agradável.

Vim até aqui buscar um carona, que aparentemente não se encontra e é o único que sabe como voltar.

Amadurecimento e responsabilidades

11 maio

Teve uma época que meu pai viveu separado da minha mãe, não foi um periodo muito feliz, eu via o meu velho de vez em quando (agora muito menos) e ele nos levava à praia. Naquele tempo aquele monte de agua salgada com areias moldáveis era um paraíso pra mim.

Lembro que me um desses dias, meu pai estava muito empolgado com Star Wars (episódio quatro) que ia passar na televisão, mas eu e minha irmã o forçamos a nos levar à praia. Ele reclamava “puta filmão”, mas pouco importou, a contra gosto ele nos levou.

Não fiz nada demais, rolamos na areia e engolimos água, ele ficava sentado na areia com uma cara de ansiedade. Foi um dia feliz, pois andamos de mãos dadas e tomamos sorvete.

Hoje sou um aficionado pela criação de George Lucas (acho que vi o episódio 4 umas quatro vezes, veria ma1s 10) e entendo como ele se sentiu, mas não da pra negar os desejos de quem amamos por motivos pessoais, somos responsáveis por certas felicidades, é nosso dever faze-las acontecerem, custe o que custar. Mas sei que foi difícil pra ele no dia.

Aquela volta na praia e o sorvete devem ter parecido normal pra ele naquele dia, mas hoje pra mim, foi mais importante que qualquer filme que eu tenha visto. Acho que ele não esperaria na areia hoje, nem eu esperaria.

Talvez possamos ver uma maratona de Star Wars juntos, quem sabe um dia…

Oferecendo a face

8 maio

Sábado participei do casamento de um grande amigo. Resolvi naquele dia que iria me preparar adequadamente para a ocasião, comprei camisa e gravata novas e também resolvi cortar o cabelo. No barbeiro pedi um “corte social”.

Era um barbeiro que eu ia regularmente, sempre pedia maquina 2. Ele mais parecia um taxista, daqueles bons de papo, conversávamos sobre família, futebol, a vizinhança e outras coisas. Não parecia ser uma pessoa ruim e tinha opiniões bem radicais sobre alguns assuntos.

Naquele sabado, acho que fiquei motivado pelo tema amizade que permeava os meus pensamentos e ja que estáva la, pedi que fizesse minha barba.

Não sei para vocês, mas é necessária muita confiança no outro para se pedir uma coisa dessas, mas como eu disse, eu confiei e deixei me levar pelo meu humor.

A navalha começou a passar pela minha pele e nada foi cortado, mas meu rosto parecia ter saído de uma sessão de peeling, todo machucado e sangrando. O barbeiro afirmou que eu não avisei que minha pele era sensível (isso era óbvio, pois eu mesmo faço minha barba, como eu disse, precisa de confiança).

Com a cara toda fodida e ainda sendo acusado pelo erro de não avisar, só me veio um sentimento: de ter errado sim em confiar e entregar meu rosto para uma navalha em um dia tão importante, de acreditar que algumas boas conversas seriam o bastante para justificar a confiança em algo tão único: é o meu rosto.

Não sei se voltarei la, tenho vergonha de mim mesmo por isso.

Essa lição eu tenho certeza que esquecerei com certeza, outras navalhas amigas virão e o sentimento será o mesmo: a culpa foi minha.

Vanishing point

13 abr

Quem já assistiu a esse clássico filme?

Um motorista maluco, com muita anfetamina na cabeça, um poçante e muita gasolia. O que faltava para ele era saber quando parar e  não ir em frente naquela corrida sem sentido.

Às vezes devemos parar de correr para a morte certa e reverter tudo, não se deixar levar por soluções fáceis e encarar situações. Fazer escolhas que nos afastam de coisas que gostaríamos, mas que no fundo são efêmeras.

Andar a pé de vez em quando é mais satisfatório que correr em um V8.

Pensei nisso comendo um prato de bacalhau essa semana. Não é um dos meus pratos favoritos, mas foi uma das melhores refeições em dias.

Sei que isso não tem nada a ver, mas ai que está à graça.

Dos erros aos erros

5 abr

Dia após dia fazemos as coisas pensando em acertar, sermos vencedores, atingirmos metas… etc

Seguimos religiosamente o mito da perfeição e nos culpamos pelos erros cometidos, que vai desde o xaveco errado na garota inteligente, no dinheiro mal empregado, na vista não feita, na palavra de apoio não dada, do atraso ao trabalho, do erro de ortografia entre tantos outros que nos pesam a cada reflexão.

Não sou diferente das pessoas comuns, para vocês terem noção, hoje publiquei no Facebook que sentia 3 meses a falta do meu pai. O problema é que ele nos deixou no dia 04/02/2011, então errei a conta, pois seriam 2 meses:

Fiquei triste por esse erro, de como pude ser estúpido a esse ponto. Quando dei por mim, estava pensando no seu Tomei, meu pai. De como ele incrivelmente trocava todas as datas de aniversário da família e do próprio casamento, além disso, trocava nomes, rostos, lugares e esquecia coisas em lugares estranhos.

Cheguei a conclusão de que ele não ligaria pro meu erro. Mas não pelo fato de que ele também esqueceria e sim por que na maioria das vezes que eu deixava escapar à atenção dele que estava aflito por ter errado ele virava com um sorriso no rosto e me falava:

– “Deixa pra lá meu filho, o que que se pode fazer né? Eu também já fiz cada cagada… Se você soubesse.”

Meu pai era esse tipo de pessoa, não que ele fosse omisso aos esquivos que cometesse, mas sabia que isso era parte da vida de qualquer pessoa e que tínhamos que aprender com isso, superar e seguir em frente.

Já ouvi muitas vezes que quando somos crianças achamos que nosso pai é um super herói e que quando envelhecemos eles se tornam humanos e bla bla bla… Por que eles erram também. Mas nunca tive essa visão do meu pai, ele sempre mostrou que errar era normal e tudo mais o que eu já disse, a diferença é que ele nunca deixou ninguém na mão e até o fim fez o que achava certo… mesmo não conseguindo.

O que importava pra ele não era sempre acertar, mas estar certo, fazer o que é direito e ser feliz. Por isso ele não foi um super herói e sim a melhor pessoa que conheci.

Apesar disso tudo, errar a data da sua morte pra mim ainda me faz pensar que sou idiota e acho que por esse motivo que meu primeiro post foi: o texto mais errado para a pessoa mais correta.

Dia após dia fazemos as coisas pensando em acertar, sermos vencedores, atingirmos metas… etc
Seguimos religiosamente o mito da perfeição e nos culpamos pelos erros cometidos, que vai desde o xaveco errado na garota inteligente, no dinheiro mal empregado, na vista não feita, na palavra de apoio não dada, do atraso ao trabalho, do erro de ortografia entre tantos outros que nos pesam a cada reflexão.
Não sou diferente das pessoas comuns, para vocês terem noção, hoje publiquei no Facebook que sentia 3 meses a falta do meu pai. O problema é que ele nos deixou no dia 04/02/2011, então errei a conta, pois seriam 2 meses:Fiquei triste por esse erro, de como pude ser estúpido a esse ponto. Quando dei por mim, estava pensando no seu Tomei, meu pai. De como ele incrivelmente trocava todas as datas de aniversário da família e do próprio casamento, além disso, trocava nomes, rostos, lugares e esquecia coisas em lugares estranhos.
Cheguei a conclusão de que le não ligaria pro meu erro. Mas não pelo fato de que ele também esqueceria e sim por que na maioria das vezes que eu dixava escapar à atenção dele que estava aflito por ter errado ele virava com um sorriso no rosto e me falava:
– “Deixa pra lá meu filho, o que que se pode fazer né? Eu também já fiz cada cagada… Se você soubesse”
Meu pai era esse tipo de pessoa, não que ele fosse omisso aos esquivos que cometesse, mas sabia que isso era parte da vida de qualquer pessoa e que tínhamos que aprender com isso, superar e seguir em frente.
Já ouvi muitas vezes que quando somos crianças achamos que nosso pai é um super herói e que quando envelhecemos eles se tornam humanos e bla bla bla… Por que eles erram também. Mas nunca tive essa visão do meu pai, ele sempre mostrou que errar era normal e tudo mais o que eu já disse, a diferença é que ele nunca deixou ninguém na mão e até o fim fez o que achava certo… mesmo não conseguindo.
Apesar disso tudo, errar a data da sua morte pra mim ainda me faz pensar que sou idiota e acho que por isso que meu primeiro post foi esse, o texto mais errado para a pessoa mais correta.